Sobre Vícios, Ética E Educação

Sobre Vícios, Ética E Educação

O título acima pode parecer estranho, mas ando pensando em duas coisas que me fizeram criá-lo. Primeiro, o caso da menina Isabela, uma criança cuja morte a mídia brasileira está transformando em um show. Sim, o Show da Morte, como bem foi dito lá no Blog EscutaZé, no post “O Diabo Mora Ao Lado”.

Virou vício na nossa cultura especular sobre a tragédia dos outros? A convivência com a morte é algo colocado como cada vez mais distante na nossa sociedade, tendo em vista outras sociedades históricas. E não acredito que o fato deste sensacionalismo em torno do caso acima nos fará diferentes. Isto pode sim ser mais um elemento desta nossa sociedade do espetáculo, onde a morte vira espetáculo.

Então por que os meios de comunicação não temperam sua produção de notícias? Mais do que a morte de uma criança ocorrida por meios trágicos, estamos assistindo a uma verdadeira catarse ao contrário, produzindo novos medos e recalcamentos sobre a imagem da infância e, por extensão, sobre a educação infantil.

A informação, tratada com rigor, é sempre necessária às sociedades complexas. Mas não precisam exagerar como se não houvesse mais nada a ser noticiado.

A segunda questão que vem visitando meus pensamentos é sobre a relação ética e educação. Não no sentido escolar do termo. Mas a visão que ainda uma boa parte dos congressistas deste país passam quando continuam a demonstrar que a sua criatividade para a corrupção alcança patamares ainda maiores. Parece que a ordem é quem consegue ser mais criativo para embolsar grandes quantias dos cofres públicos. Sim, estou me referindo aos cartões corporativos.

Como imaginar um país se o exemplo de ética, que deveria ser educativamente ensinado pelos líderes republicanos, eleitos pelo povo, é corroído frequentemente sem punição satisfatória, ou pelo menos reconhecida?

Mas temos a poesia, a música, a arte para mostrar que nem tudo está acabado. Foi o que eu encontrei no Blog da Miriam Sales: um post intitulado “Sinto vergonha de mim”. Rolando Boldrin, numa atitude artística e ética, reconhecendo o erro, em nome da autoria de um poema de Cleide Canton.

Pedir desculpas já seria um exemplo bom que, seguindo Boldrin, tanto a mídia quanto os políticos podiam fazer publicamente pelos seus famigerados erros profissionais. Apreciem o vídeo:

Rolando Boldrin declama Cleide Canton

Esse post foi publicado em ética, Cleide Canton, educação, Púlpito, rolando boldrin, vicio. Bookmark o link permanente.

3 respostas para Sobre Vícios, Ética E Educação

  1. Sergio disse:

    Belíssimo ouvir o Bodrin recitar Rui Barbosa ou a poeta que nem sabia ser autora de palavras tão eloquentes. Quem não se emociona com tal indignação, com os rumos que tomou a moral em nosso país? Mas passada a indignação, havemos de pensar que culturas mais “éticas” têm milênios de história de guerras e conflitos no campo da moral. E nenhuma delas havia até o século vinte enfrentado um momento histórico tão decadente como o capitalismo da era pós-moderna.Elas próprias, as culturas milenares, estão cambaleantes tentando enfrentar o pragmatismo,o individualismo, o consumismo e tantos outros fetiches que estão corroendo seus valores, sua ética. Nós, nação de poucos séculos e poucas guerras no campo da moral, já que temos quinhentos anos para quem crê que o Brasil “nasceu” em 1500 com a invasão dos portuguêses; ou temos duzentos anos para quem crê que o Brasil “nasceu” em 1808 com a chegada da corte portuguesa ao Rio de Janeiro; ou apenas cento e dezenove anos se considerarmos realmente Brasil o país republicano. Assim tão jovem, o desenvolvimento da cultura “made in Brazil” não tem ainda, mas terá!!!, a consistência de velhas culturas que muito já brigaram consigo mesmas e com os desafios postos pelas circunstâncias históricas. Portanto, se somos infantes na moral, em tempos de globalização de tudo, temos que enfrentar problemas de gente grande, problemas que se enfrenta com um ego ético estruturado por guerras milenares no campo da cultura,coisa que ainda não temos. Por isso, somos como tantas outras culturas jovens, muito vulneráveis. Para não sermos anacrônicos e idealistas, precisamos enchugar as lágrimas, dar um passo adiante dessas lamentações, entendendo nossas limitações, e definindo estratégias de superá-las, organizando “guerras morais” com os outros, e conosco mesmos, nas salas de aula, no trânsito,no sindicato, na fila do banco, do supermercado, no preenchimento da declaração de imposto de renda etc.. Só uma cultura forte suporta ventos e tempestades tão insanos. Prof.Sérgio (UFG-CAC)

  2. Luciana Pereira dos Reis disse:

    Professor Woney, agradeço-lhe pela dedicação à Educação, por meio do soprandonet. No qual ajuda-nos, enquanto futuros docentes a ter uma visão real da educação, e do mundo. Percebendo a importância de formar a conciência moral e etica, após ter uma, de que podemos marcar a história da educação, em meio a tantos descasos. Sendo a águia que abre caminho, incitadas por grandes voadores como Cleide Canton, Rui Barbosa.
    Abraço, com admiração Luciana.

  3. gilliard rodrigo disse:

    Sou estudante do curso de pedagogia da UFJF(Universidade Federal de Juiz de Fora, que é considerada a terceira melhor universidade do pais) e percebo com muita clareza, infelizmente, que no ensino que nos e ministrado a ética se faz pouco presente na relação professsor – aluno. Ou a idéia do que seria ética se modificou. Tenho militado junto aos companheiros de diretório acadêmico para mudança de tal situação. Inseri tal comentário, por acreditar, a formatação que o discente está recebendo no 3º grau,juntamente com a midía,e fator crucial, ao meu ver, para ajudar a massificar a nossa perda de sensibilidade e criticidade diante de situações tragicas,como o caso de Isabela. Nossas faculdades estam ajudando a manter esse indivíduo fantoche.

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